Baixas temperaturas favorecem o repouso das videiras, etapa essencial para a formação dos cachos e a qualidade das uvas
As baixas temperaturas que vêm marcando o outono na Serra Gaúcha são recebidas com expectativa pelos produtores de uva da Cooperativa Vinícola Garibaldi. Embora os parreirais aparentem estar sem vida nesta época do ano, o frio desempenha um papel fundamental para o desenvolvimento das videiras e para a qualidade da próxima safra.
É durante o inverno que ocorre a chamada dormência, um período de repouso metabólico da planta, acionado pelas temperaturas mais baixas e pelos dias mais curtos. Nesse estágio, a videira interrompe seu crescimento e concentra energia para enfrentar o período mais rigoroso do ano. “A dormência serve para proteger a planta contra o congelamento e garantir uma brotação forte na primavera, além de ser um período para ela criar uma reserva de nutrientes e atravessar esse momento”, explica o gerente técnico agrícola da cooperativa, Evandro Bosa.
Ao entrar em dormência, a videira passa por mudanças visíveis. As folhas caem, o crescimento é interrompido e as reservas de energia são direcionadas para o tronco e as raízes, garantindo que a planta esteja preparada para reiniciar seu ciclo produtivo quando as temperaturas voltarem a subir. Esse descanso natural é considerado indispensável para que a videira apresente um desenvolvimento equilibrado na primavera. Quando ela não acumula frio suficiente, os reflexos podem ser percebidos ao longo de toda a safra. “Se isso ocorrer, ela apresentará uma brotação desuniforme, não terá uma boa fertilidade de gemas (brotos) e consequentemente uma redução na produção de uvas”, observa.
A preocupação ganha ainda mais relevância diante das alterações climáticas registradas nos últimos anos. Invernos mais amenos e com menor número de horas de frio podem comprometer o chamado relógio biológico das plantas, afetando diretamente sua produtividade. “Essa alteração compromete o desenvolvimento futuro dos parreirais por provocar a antecipação da brotação. Isso pode expor os brotos jovens a geadas tardias, além de causar um despertar desuniforme das gemas, redução no número de cachos e queda na produtividade da safra”, explica Bosa.
Além de representar um período de descanso para as videiras, o inverno representa uma fase importante de trabalho para os produtores. É nessa época que ocorre a poda de inverno, uma das práticas essenciais para definir o potencial produtivo do próximo ciclo. A poda é realizada justamente durante a dormência porque a planta está armazenando nutrientes e apresenta menor atividade fisiológica, regular a produção sem causar perda de seiva ou estresse energético.
O período também é aproveitado para correções e melhorias no solo. Entre as práticas mais comuns estão a aplicação de calcário para reduzir a acidez e a utilização de adubos orgânicos, sempre com base em análises de solo, que indicam as necessidades específicas de cada área cultivada. Embora ainda seja cedo para prever com precisão o comportamento da próxima safra, os técnicos acompanham indicadores que ajudam a projetar o potencial produtivo dos vinhedos. “É possível prever o potencial produtivo através da análise de gemas, que quantifica os primórdios de cachos microscopicamente antes da brotação. Esse trabalho é realizado para podermos ter uma previsão de safra”, explica.

